6:51h: No semáforo, duas raparigas esperam para atravessar a Av.do Colégio Militar. Ambas esperam, ambas com o cambalear do álcool no sistema. Sóbrias o suficiente para usarem casacos, mas não casacos para o frio que está hoje de manhã. E aqueles Jeans justos também não devem ajudar a aquecer. O carro à minha frente, uma carrinha familiar, já antiga e com algumas mossas, transporta um senhor de meia idade, cabelos grisalhos. As raparigas olham para ele, observando o cabelo despenteado que lhe cai pelas orelhas. Quem é ele? Que faz ele aqui? Uma das raparigas grita, não necessariamente para ele. Simplesmente grita. A outra empurra a pélvis para a frente e agarra na virilha, como que a anunciar. O condutor continua a olhar em frente, olhos como que com persianas auto impostas. Apenas o maxilar se firma. As raparigas riem, perderam o sinal verde, mas atravessam na mesma. 6:58h: Colunas de cimento e vidro, que encontram o ceú algures, asfixiam o pouca luz que possa transparecer esta manhã. Três homens, dois em sobretudos aproximam-se rapidamente da entrada do metro parando debaixo das arcadas para se abrigarem da chuva leve que caí. Fazem o melhor que podem para ignorar o homem que está debaixo de uma pequena árvore a interagir com a mesma, que parece estranha, transplantada no meio de um passeio de pedra e concreto. Enquanto o homem – cujo casaco e unhas combinam com o seu cabelo em sujidade – se aproxima do trio, eles ficam tensos, mas apenas ligeiramente. Até um sem-abrigo deveria saber que estes são homens de pretensão. Homens que não tostões a outros homens. Mesmo sabendo a resposta, ele insiste, pede ajuda aos homens importantes, mão esticada no gesto universal de súplica. Em troca recebe o universal abanar de cabeça, a recusa em admitir que ambos os tipos de pessoas existem. Mas os homens que falam com árvores não desistem facilmente. Ele avança. Eles fecham fileiras, ombro Armani com ombro Armani, e viram-lhe as costas colectivas. Uma mulher de estatura pequena, fato e cabelo preto amarrado no cimo da cabeça, encosta-lhe umas moedas silenciosamente na palma da mão. 7:04h: Finalmente consegui estacionar. Um homem e uma mulher dobram a esquina em passo apressado. O homem lidera, concentrado em ritmo acelerado. A mulher acelera para acompanhar o passo. As pastas nas mãos de ambos confundem inicialmente. Colegas de trabalho a encontrarem-se para o autocarro? Ou um casal atrasado para o emprego? A confusão dissipa-se à medida que a mulher fala, dizendo duas vezes mais palavras do que as necessárias, na esperança vã de que algumas delas façam sentido. Ele ouves as palavras, a irritação e a resignação na sua expressão mostram que ele ouve. Mas não está a escutar. 7:17h: Uma menina num fato cor-de-rosa, cabelos encaracolados castanhos a fugirem debaixo de um gorro estende a mão acima da cabeça, de forma a segurar a mão da mãe. Ela salta, tão alto como uma criança em galochas de Inverno consegue. E depois mais alto e mais alto. A mãe, mesmo cabelo encaracolado, vem carregada com bolsa, mochila, mala de portátil e uma mochila verde viva com flores. Neste momento qualquer traço de luz solar desapareceu e chove com força. Subo pelas escadas e abrigo-me no mesmo local onde uma pequena bola de energia tenta arrancar o braço do sítio à mãe.A mãe olha para a pequena bola e depois olha para cima e cruzamos olhares, esguelha um sorriso. “A melhor coisa que me aconteceu, esta catraia”. Respondo com um sorriso tímido e afasto-me para a entrada das Torres. 7:21h: Colado no meu teclado está um Post-it, com letra impecável lê-se “Obrigado pela ajuda, bom feriado”. Não reconheço a caligrafia, rasgo e meto no lixo. O meu mail diz-me que tenho 34 assuntos por ler e relembra-me da agenda cheia que tenho de cumprir. Faço uma chamada, apenas para ouvir uma voz, sem sucesso. Pela janela a chuva caí cada vez com mais força, agora aqui do 11º piso transformou-se em névoa e só consigo ver as luzes dos carros que se acumulam lá em baixo. Aos poucos as pessoas vão chegando, o barulho aumenta, começou o ritmo constante ao qual acho que nunca me irei habituar. Começo a perder a capacidade de prestar atenção aos pormenores. Desligo.
É apenas mais um dia.
Se chegasses um pouco mais tarde ao trabalho…para além de tudo o que descreveste podias acrescentar…..8:25: Parado no semáforo está um carro preto, lá dentro está uma rapariga com casaco branco, pensativa, a pensar que…com este tempo estava bem melhor na caminha!! Lolol
Bjs
lol somos 2. é o que dá vir bem cedo…….;)
Eu demoro 5 a 7 minutos a chegar ao trabalho… por vezes ainda chego a dormir
Boa descrição Solace…
Espero que estejas bem e que o curso esteja a correr bem.
Um abraço
Peach Peach
Sorry pela demora na resposta!
Eu estou bem e o curso vai a voar!!!!
e tu como estás?!!!!!!