Como o Mundo veio a ser o que é

2 03 2010

Sim, existem excepções. Mas muito poucos bloggers sabem, na realidade, escrever. Os bloggers escrevem para uma multidão grátis para satisfazer a mente colectiva. No fundo, é entretenimento. Muitos bloggers são bons em marketing, outros em estabelecer laços, muitos em auto-promoção, em crítica, etc. Mas não em escrita.

Lembro-me do meu 1º blog ( bridge2solace ). Escrevia e comentava, e era comentado, tinha “seguidores” segundo me dizia o Google. Quando mudei para este, poucas são as pessoas que aqui vêem, os textos não são passados nem comentados como eram no outro. Mas nunca foi essa a ideia. A minha incursão do mundo da blogosfera começou por razões pessoais e cresceu em mim. De repente, hei sou um Blogger. Para os bloggers é essa a missão: criar “embalagens” de 500 palavras, com negritos e cabeçalhos, prontas a serem lidas e devoradas em 2 minutos ou menos, a rebentar de opiniões e construções.

Contra mim falo. Mas “blogar” não é escrever. É fácil ser amado como blogger. Tudo o que é preciso fazer é jogar ao som do público. Ou inflamá-lo para chamar atenção. Não existe nada de errado em qualquer uma das duas hipóteses. No seu “core”, blogar não é sobre originalidade, mas sobre a agregação, reciclagem e digestão de ideias. É a menina dos olhos da cultura de colmeia da Web, onde uma vasta maioria de contribuições escritas produzem contratos sociais de alguma forma, destrutivos. A ideia por trás deste contrato é a de que autores, jornalistas, músicos e artistas são encorajados a tratar o fruto dos seus intelectos e imaginação como algo a fornecer grátis para a colmeia. A reciprocidade aqui apenas toma forma de auto-promoção. A cultura tornou-se nada mais que publicidade.
No entanto, escrita para durar, é algo completamente diferente. Envolve uma perspectiva que não seja só uma reacção aos acontecimentos de ontem numa conversa ou sítio.

Posicionamo-nos de forma a acreditar que estamos a mandar abaixo as barreiras, a quebrar limites e a pisar território antes permitido apenas para profissionais, mas no fundo apenas contribuímos para massas inertes, ávidas de mega números de comentários, subscrições, fãs e seguidores. Numa idade em que todos podemos ser famosos com um click em “Publicar”, perdemos a capacidade de criar ou de ler obras que entusiasmem, provoquem e deliciem.

Os bloggers não são escritores, nem são eles a imprensa, ou superiores aos velhos media. Porque se agora brilham uma data de escritores que eliminaram o intermediário (um jornal On-line, por exemplo, onde seriam pagos para publicar o seu trabalho, o curso de jornalismo, de escrita, de Português), não significa que os blogs tenham tomado conta do mundo electrónico, mas antes que o termo “blogger” se tornou tão vasto que a sua definição já não se aplica à miríade de pessoas e textos que anexam.

Peguem num jornalista do “Independent”, no Noah Chomksy, no John Pilger e num qualquer reputado blogger e peçam-lhes para escrever sobre a sua crise de meia-idade. Eles não são o mesmo, nem iguais, e nem certamente suportados pelos mesmos padrões ou expectativas. Eles são, apesar de gostarmos de dar pouca credibilidade à noção, inteiramente diferentes.

É como se a cultura tivesse congelado mesmo antes de se tornar disponível e digitalmente aberta, e tudo o que fazemos é pilhar o passado como mendigos num caixote de lixo. As pessoas criativas – os novos camponeses – disseminam-se no meio dos novos reis da comunicação.

Blogar é entretenimento. Talvez não costumasse sê-lo. Talvez no inicio, fosse sobre ligações, pensamentos e interacção. Mas com o tempo, vergou-se a um novo apelo – irresistível – de que as ideias são nada mais que um colectivo de conhecimento, e ousai, a colocar isso em causa.

Eu tenho um blog. Mas eu não sou um escritor. Eu nunca verei o meu nome impresso na lombada dura de um livro, na coluna de um jornal ou publicado noutro qualquer lugar.
Escrever é algo mais. E é na leitura desse algo mais que as ideias duradouras, observações e filosofias nos saciam a sede que tentamos acalmar nas horas que passamos a nadar num imenso mar salgado e morto de textos de blogs.

Não existe nada errado em blogar. Mas vamos dar crédito onde ele é devido – nos verdadeiros escritores, jornalistas, novelistas, repórteres, colunistas e outros que nos inspiram e fundir as suas palavras na nossa mente num esforço de nos podermos agarrar a elas apenas um pouco mais…

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3 responses

2 03 2010
Gingerbread Girl

Tens razão em muito do que dizes. Eu própria escrevo “coisitas”. Posts de pouca importância que servem apenas para gozo meu.
No entanto não almejo legiões de seguidores nem dezenas de posts, aliás, poucos são os comentários que fazem a diferença. Muitas vezes há comentários melhores que o próprio post. E isso, para mim, é de valor.
Desta forma tenho dois blogs… uma para aparvalhar, porque é mesmo esse o termo, e outro que é a menina dos meus olhos… um projecto.

Se reparares, por essa blogosfera fora, os blogs mais insalubres de conteúdo são os mais populares.
Há blogs em que basta escrever “A primeira vez que calcei as minha botas novas, parti uma unha”, e ZÁS, 30 comentários! Ora, isto não pode ser normal. Mas é uma realidade há qual já me habituei. Reflecte a sociedade de consumo imediato em que vivemos. Em que posts mais longos ou mais profundos são chatos de se ler. As pessoas não querem muitas letrinhas. Atrofiam.

Quanto ao teu blog, se me permites a sugestão, mete a letra maior pá! Só um bocadinho. Já não tenho idade para ler em letra tão pequena. :p

bjs*

2 03 2010
Fátima

Quando entrei nesse “mundo de blogues” fiquei um bocadinho confusa quanto à importância que muitos davam a determinados assuntos e ao tempo gasto de volta disso. Muitas vezes cheguei mesmo a pensar “mas essas pessoas não têm mais nada que fazer do que andar de volta da net o dia todo…” eu organizo o meu tempo para poder fazer várias coisas (uma delas, confesso, andar a visitar blogues e publicar algo que eu acho que deva registrar) quando eu achar que estou a perder um pôr-do-sol que se apresenta no céu ou uma linda noite estrelada devido ao “vício” de blogar ou para navegar na net, eu vou afastar-me e repensar o que é realmente importante para mim.

E claro que eu não acho que sou uma escritora, o que eu publico no blogue não dava um livro ;) são só coisas minhas.

31 03 2010
Peach

Boa noite Solace!

Eu simplesmente diferencio-os pela sua liberdade! Infelizmente são pouco os escritores que publicam o que realmente pensam sobre determinados assuntos!

Determinadas notícias, determinados livros sofrem uma “adaptação” ao que é chamado de “falsa liberdade de expressão”… e não importa como as frases são construídas. Se vendem ou não! Eu sou pelo conteúdo e não pela embalagem. Eu sou pela verdade de cada um e, mesmo não concordando, têm o meu respeito. Não quero uma “verdade adaptada” àquilo que queremos ouvir, que desejamos. Estamos numa nova Era Romana em que o Coliseu foi substituído pelo estádio de futebol, pelas novas tecnologias… a Ignorância é e sempre será sinónimo de Felicidade.

Para mim… e agora vou meter a minha área de estudo ao barulho – Psicologia e Cozinha. Do que vale ter um prato bem estruturado a nível da sua geometria, com cores bem conjugadas… se o cheiro e o sabor não corresponde às expectativas nós outros criadas. E isso aplica-se, exactamente na mesma forma, às pessoas… a tudo!

Há muito que não aparecia por aqui, desculpa a ausência! Não tenho vindo à net regularmente e sempre que venho infelizmente não tenho muito tempo para dedicar aos amigos virtuais! Cafézinho um dia destes!?!

Um abraço e boa continuação da perseguição do sonho.

P.S. Um bejinho Fátima! :)

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